4. REPORTAGENS julho 2012

1. CAPA  FUJA DAS ARMADILHAS DA DISTRAO E... APRENDA A SE CONCENTRAR
2. CAPA  MINHA VIDA SEM FOCO
3. COMPORTAMENTO  CONTANDO A VIDA ADOIDADO
4. SADE  NASCER  UM PARTO
5. SADE  MACONHA SINTTICA  E A ERA DAS DROGAS DE LABORATRIO
6. AS FOTOS MAIS CARAS DA HISTRIA

1. CAPA  FUJA DAS ARMADILHAS DA DISTRAO E... APRENDA A SE CONCENTRAR
Facebook, sua cama, uma hora a mais no bar: tudo  mais interessante do que terminar o trabalho. E a culpa  do seu crebro, que no foi feito para se concentrar. Mas no se desespere. Com algumas tcnicas simples, d para melhorar seu foco. Basta prestar ateno nas prximas 8 pginas. (E essa j  a dica nr 1!)
TEXTO: GISELA BLANCO
DESIGN: RAFAEL GUICK
ILUSTRAO: OSILVA 
FOTO: ALEX SILVA

	Edison no conseguia se concentrar de jeito nenhum.  Tinha sempre dois ou trs empregos e passava o dia indo de um para o outro.  Adorava trocar mensagens, e se acostumou a escrever recados curtos e constantes, s vezes para mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Apesar de ser um cara mais inteligente do que a mdia, sofria quando precisava ler um livro inteiro.  Para completar, comia rpido e dormia pouco  e no conseguia se dedicar ao casamento conturbado, por falta de tempo.  Se identificou? Claro, quem no tem esses problemas? Passar horas no twitter ou no celular, correr de um lado para o outro e ter pouco tempo disponvel para tantas coisas que voc tem que fazer so dramas que todo mundo enfrenta.  Mas esse no  um mal do nosso tempo.  O rapaz da histria a em cima era ningum menos que Thomas Edison, o inventor da lmpada.  A dcada era de 1870 e o aparelho que ele usava para mandar e receber mensagens, um telgrafo.  O relato, que est em um edio de 1910 no jornal New York Times, conta que quando Edison finalmente percebeu que seu problema era falta de concentrao, parou tudo. Se fechou em seu escritrio e se focou em um problema de cada vez.  A partir da, produziu.

 verdade que tudo ao nosso redor serve para nos distrair. Que as ferramentas criadas para roubar o seu tempo esto cada vez mais interessantes. E que todos aqueles links na internet so muito mais legais do que o seu trabalho. Homens do tempo de Edison no tinham um celular que tocava ou recebia e-mails enquanto eles tentavam ler um livro  mas a luta humana pela concentrao est longe de ser um problema moderno. Na verdade  bem mais antigo do que voc imagina.

RESPIRE FUNDO
Ento vamos l. Concentre-se. Voc est conseguindo ler esse texto? timo! S podemos acreditar em voc. Afinal,  difcil medir exatamente o quanto voc est prestando ateno aqui. No h nenhuma maneira cientfica de medir essa forma prolongada de ateno que ns chamamos de concentrao. Isso porque ela no  tarefa de uma rea especfica, mas de um conjunto de sistemas que envolve o crebro inteiro. O que a neurocincia j sabe  que se trata de um processo de escolha do que  importante. Vamos entender na prtica.
     Voc est em uma festa barulhenta, lotada de pessoas. Algum interessante se aproxima e puxa assunto. Nesse momento, seu crebro a elege como o foco mais importante e ignora todos os outros estmulos ao redor. Quase todas suas habilidades cognitivas esto na conversa. O lobo frontal, responsvel pelo comportamento e pela tomada de decises,  especialmente importante na concentrao, mas praticamente todo o sistema sensorial est envolvido, afirma o neurologista Ivan Hideyo Okamoto, da Universidade Federal de So Paulo. Emoes e memria, por exemplo, tm grande influncia no que e no quanto voc vai se concentrar. A origem disso est no sistema lmbico, que comanda as emoes  ele sempre vai favorecer os elementos que despertam sensaes intensas. Por isso  to fcil se concentrar na pessoa interessante que puxa papo. Com todos os seus sentidos voltados para algo to importante (conseguir um telefone no fim da conversa, por exemplo), fica difcil no se concentrar.
     Mas o verdadeiro desafio  focar naquilo que no  to fascinante assim. Voc sabe do que estamos falando: certamente j tentou estudar para uma prova ou prestar ateno no seu chefe, mas simplesmente no conseguiu. A culpa para a sua mente avoada est nos nossos ancestrais. Seu crebro simplesmente no foi moldado pela evoluo para passar muito tempo focado no mesmo assunto. Nossos parentes evolutivos  outros mamferos, aves e rpteis  precisavam sempre tomar decises rpidas. Fugir de um predador, caar, procurar abrigo. Para todos os outros animais, reparar em tudo o que se passa ao redor significa sobreviver. Para nossos ancestrais, o tipo de concentrao que queremos ter agora no era necessria, diz o psiclogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York. Por isso, nosso crebro foi moldado para ser rpido demais e atento a tudo o que acontece  volta. Passou milhares de anos se aprimorando para prestar ateno nos perigos das savanas, e no em um ponto esttico, como esta revista. S agora, que temos a vida fcil, em que compramos nossa comida no supermercado,  que se tornou necessrio concentrar.
     Para nossa sorte, e ao contrrio de outros animais, somos capazes de acionar nosso neocrtex  a parte mais evoluda do crebro  para tomar decises a longo prazo. Como a de estudar para uma prova, por exemplo. Mas, para cumpri-las, precisamos lutar contra a parte mais primitiva que carregamos  nosso crebro reptiliano. Ele foi programado ao longo de milhares de anos para buscar recompensas imediatas.  por isso que  to difcil resistir quelas batatas fritas quando voc est de dieta. O prazer de com-las  uma recompensa muito mais rpida do que os quilos a menos que voc veria na balana daqui a alguns meses, diz Gary Marcus.
     Da mesma forma, por que ler um livro inteiro se comentar as fotos dos seus amigos no Facebook  muito mais divertido? Abrir vrias abas no seu navegador e descobrir rapidamente tudo o que est acontecendo so coisas instintivamente prazerosas. Alis, pesquisas recentes mostram que esse prazer pode ser to viciante quanto o lcool.  que receber seus e-mails ou ver aquelas atualizaes dos seus amigos libera dopamina, um importante neurotransmissor ligado ao prazer e  motivao. Ela est por trs do nosso comportamento de busca, da vontade de procurar por algo novo.  ela que nos faz curiosos por novas ideias e informaes, afirma em seu blog a psicloga Susan Weinscheak, autora do livro Neuro Web Design: What makes them click? (Neuro Web Design: O Que Os Faz Clicar?, sem traduo no Brasil ainda).  isso que faz com que seja impossvel ignorar a caixa de mensagens quando voc sabe que tem mensagens novas: nosso crebro as entende como uma tentao irresistvel. Com twitter e e-mail, ns agora temos uma gratificao instantnea e constante para o nosso desejo de buscar, diz. Ou seja, no  a internet que nos distrai, ns  que construmos a internet da forma que ela mais nos agrada: distraindo-nos. Por isso, ela  cheia de janelas clicveis, abas que se abrem e avisos visuais e sonoros.
     Opa, mas ento como  que voc conseguiu se concentrar para ler esse texto at aqui? (Quer dizer, voc ainda est a, n?)  que se concentrar pode ser uma tarefa difcil por natureza, mas est longe de ser impossvel. Felizmente nosso crebro se adapta facilmente ao que aprendemos. Por isso  possvel treinar a capacidade de concentrao, diz David Schlesinger, neurocientista do Hospital Albert Einstein. Ele se refere  plasticidade do crebro, aquela capacidade dos seus neurnios de se redistribuir de acordo com a necessidade e o treino. Alis, talvez voc no saiba, mas ao ler essa revista j est treinando a concentrao.

CONCENTRE-SE QUEM PUDER
     Assim como outros traos de personalidade, a habilidade de se concentrar varia de uma pessoa para outra. Isso acontece porque alguns tm um controle melhor sobre a parte repitiliana do crebro. Assim como algumas pessoas se viciam com mais facilidade em lcool do que outras, alguns crebros so calibrados para gostar mais de se desconcentrar. Outros j tm mais facilidade de ateno, afirma Gary Marcus.
     Para os neurologistas, boa parte da capacidade de se concentrar vem marcada no seu DNA. O que no quer dizer que ela esteja sendo usada a pleno vapor. O neurocientista americano Michael Posner, da Universidade de Oregon, desenvolveu um modelo de 3 partes para estudar como funciona a ateno no crebro. A primeira funo  a de alerta, que nos mantm atentos, bsica para qualquer pessoa que esteja acordada. Depois, vem a funo de orientao, que nos permite focar na informao que escolhemos no momento  como voc agora escolheu ler esse texto. E a ateno executiva, a mais complexa de todas,  a que regula a habilidade de prestar ateno em algo que definimos a longo prazo, ignorando emoes e estmulos imediatos.
     Agora, Posner estuda como diferenas fisiolgicas nesses circuitos podem moldar a personalidade das crianas e influenciar na capacidade de controlar emoes e pensamentos (que costumam tirar a concentrao). Crianas que tm como ponto forte o sistema de orientao, por exemplo, podem virar adultos com facilidade para observar detalhes que a maioria das pessoas costuma deixar passar, como uma boa oportunidade de negcio. J quem tem as redes executivas fortes tem facilidade para driblar distraes e se concentrar a longo prazo no que  realmente importante.  aquele cara da sua turma da escola que conseguia prestar ateno na aula mesmo com toda a gritaria e bolinhas de papel voando pelo ar. Para voc, ele podia ser apenas um bernerd. Para o professor Michael Posner, ele tem uma caracterstica que faz parte da personalidade de pessoas bem-sucedidas, aquelas que conseguem facilmente expulsar pensamentos inconvenientes e focar nos objetivos.
     Mas no vale culpar a natureza: distrair-se com facilidade no  uma sentena de fracasso. Boa parte dos psiclogos, por exemplo, acredita que a concentrao no  inata, mas algo que pode ser ensinado ao longo da vida.  uma caracterstica cultural, construda com o aprendizado, diz a psicloga Marilene Proena, professora da Universidade de So Paulo. E uma das melhores formas de se concentrar  meditando. Para Marilena, a nica coisa que difere voc dos monges budistas, que conseguem ficar 5 horas em posio de ltus visualizando o nada,  que eles treinaram o foco desde cedo. Ou seja, meditao  e concentrao   questo de treino.
     Meditar  um exerccio de concentrao to bom para o seu crebro quanto levantar pesos na academia  para seu bceps. Um estudo da Universidade da Califrnia mostrou que a meditao intensa pode ajudar a manter e sustentar o foco at mesmo durante as tarefas mais chatas. Os pesquisadores aplicaram testes de concentrao em 60 voluntrios e depois os dividiram em dois grupos. O primeiro foi mandado para um retiro de 3 meses em um centro de meditao. Passavam pelo menos 5 horas por dia meditando. O segundo continuou com a rotina de sempre. Ao fim dos 3 meses, foram aplicados novos testes. Os participantes precisavam se concentrar em uma tela de computador em que apareciam linhas retas. Quando uma delas fosse levemente mais curta, deveriam clicar com o mouse. Um teste bem chato  mas aqueles participantes que passaram pela temporada de meditao se saram muito melhor.
     Fazer coisas que voc gosta, alis,  a forma mais simples de se concentrar. Da mesma forma como um filme bom faz o tempo passar rpido, uma tarefa montona pode fazer cada minuto parecer uma eternidade. Para o psiclogo Nicholas Hobbs, um dos maiores especialistas em desenvolvimento cognitivo, a melhor forma de garantir a ateno  escolher atividades desafiadoras. Se a tarefa  to difcil que voc quase no  capaz de cumpri-la, certamente vai exigir que voc se concentre mais. ( Mas no exagere: tarefas impossveis tambm distraem.)
     Mas  claro que nem sempre voc gosta ou  desafiado por tudo o que precisa fazer. s vezes o trabalho  simplesmente chato, mas mesmo assim precisa ser feito. Nesses casos, o truque  transform-lo em um tipo de jogo, focando em uma fase de cada vez , diz a escritora americana Winifred Gallagher. Ultrapassar etapas , uma a uma, pode deixar o processo todo mais interessante. Algo parecido com as estratgias de gamification, aqueles pontos e ttulos que alguns programas ou aplicativos conferem a cada tarefa cumprida (como no Farmville, por exemplo). Para encarar um dia de escrever relatrios, voc pode primeiro fazer uma lista com tudo o que precisa cumprir. A cada tarefa riscada da lista, voc ganha um ponto  e, se o trabalho for grande, dois pontos. Com 5 pontos, voc pode se conceder algo como um chocolate ou um cafezinho. Com 10, ganha meia hora de vdeos no YouTube ou outra rede social. Parece besteira  mas realmente ajuda.
     Outra dica  alternar esses afazeres com outros mais relaxantes, como dar uma volta em um parque ou tomar uma gua com um colega. Ou ainda com outros mais intelectualmente estimulantes para voc, como aprender a tocar violo ou estudar um novo idioma.  que a nossa concentrao funciona em ciclos: De 45 minutos a uma hora  o mximo de tempo que a maioria das pessoas consegue se concentrar em um s assunto. Por isso precisamos de intervalos entre as aulas, por exemplo, afirma David Schlesinger. Um estudo recente mostra que at mesmo aqueles minutos que voc gasta assistindo vdeos no Youtube ou comprando cupons de descontos podem ser bons para a sua produtividade. Pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrlia, analisaram a rotina de 300 trabalhadores e perceberam que aqueles que faziam breves pausas durante o dia para ler ou assistir coisas pessoais na internet tinham uma produtividade quase 10% maior. (Dica preciosa para dividir com o chefe amanh.)
     Tudo pode depender ainda do grau de exigncia que voc se impe.  fato: todos temos cada vez mais informaes para absorver. O que pressupe tambm mais dificuldade para nos concentrar e reter cada uma delas. O psiclogo Milily Cskszentmihlyi (ele  hngaro, da o nome) tentou entender o fenmeno calculando a quantidade de informaes que nossas redes neurais so capazes de absorver. E ele chegou a um nmero: apenas 110 bits por segundo. Ouvir algum falar, por exemplo, requer o processamento de 40 bps. Ou seja: tem 70 bits sobrando a para voc usar em distraes ao redor. Por isso  possvel rabiscar num papel ou pensar na conta que voc tem de pagar enquanto ouve a conversa. Utilizar os 110 bps em uma atividade seria o equivalente ao que Cskszentmihlyi chama de flow, aquele estado de concentrao absoluto que faz com que voc nem perceba o tempo passar. Como quando voc assiste seu filme preferido, l um livro to bom ou conversa com algum to interessante que no consegue parar.
     Alguns especialistas acreditam que a explicao para a sua falta de concentrao no  que o seu crebro seja lento, mas, na verdade, veloz demais. Somos mais rpidos para pensar do que para ler. Por isso temos dificuldades para focar em ler um livro, por exemplo. Nossa mente busca preencher o espao vazio com vrias informaes, afirma Ivan Okamoto.
     Para quem quer comear a se concentrar mais, vale imitar os monges. Visualize um ponto ou imagine a chama de uma vela e tente no pensar em mais nada por alguns minutos. Toda vez que a sua mente for parar longe, traga de volta. Voc vai ver que no  fcil. Outros conselhos bsicos so: desligar o celular, a televiso, a internet  se precisar de um mtodo radical, desligue o modem da tomada!  e qualquer outro aparelho que puder roubar sua ateno. Criar uma rotina, fazer listas com as prioridades do dia, aprender a se organizar e reservar horrios para resolver cada coisa de uma vez tambm ajuda  principalmente na hora de afastar da sua cabea aquelas preocupaes com outras demandas que poderiam distrair. Afinal, uma boa forma de afastar as distraes  tir-las da cabea. Voc ficaria surpreso com o volume de coisas em que consegue pensar e resolver em apenas um dia, afirma David Allen, autor do livro A Arte de Fazer Acontecer.
     Seja qual for o mtodo, em uma coisa todos os especialistas concordam: a concentrao  uma capacidade que pode sempre ser aprimorada. Se voc conseguiu se concentrar o bastante para ler essa matria at aqui de uma vez s, provavelmente sabe disso. Se voc comeou, parou, voltou ou j pulou direto para esta parte, tudo bem tambm: nunca  tarde para retornar ao comeo e tentar de novo. Da prxima vez, quem sabe, um pouco mais concentrado.

A MENTE EM FOCO
CABEA VAZIA, LAR DA ATENO
1- O PROBLEMA - Para comear a se concentrar,  uma boa usar tcnicas de relaxamento. Segundo especialistas em meditao, nosso crebro trabalha normalmente em uma frequncia muito alta, lidando com uma grande quantidade de informaes.
2- O MEIO - O primeiro passo  baixar o fluxo dos pensamentos a um nvel parecido com a meditao. Para isso, foque na respirao. Preste realmente ateno no ar que entra e sai, na quantidade e intensidade. Assim voc esvazia o crebro.
3- O FIM  O exerccio mais difcil  focar em um ponto esttico.  Imagine a chama de uma vela e tente controlar o movimento com a mente.  O desafio aqui  pensar em nada  o que  bem difcil.  Nossa cabea preenche espaos com pensamentos.

TECNOLOGIA: A CILADA
O VILO A SEU FAVOR
1- POR ORA  M.I.T., Stanford e Universidade da Pensilvnia tm usado lasers para melhorar a concentrao em ratos (e em breve, a sua).  A ideia  sincronizar a vibrao de neurnios para que no se distraiam com estmulos visuais e mantenham o foco.

AS TENTAES DO DIA A DIA
DICAS PRTICAS
1- Procure trabalhos que exijam o limite das suas habilidades. Quanto mais difcil, mais voc ter que se concentrar e seu crebro permitir menos brechas para a distrao.
2- Transforme trabalhos chatos em jogos com etapas a serem vencidas. Acumule pontos e a se d prmios, como descansos ou pausas para o cafezinho.
3- Aprenda a delegar. Em vez de aprender tudo sobre um novo celular que voc quer, deixe que um amigo que entende mais do assunto escolha para voc.
4- Estabelea uma rotina. No misture tarefas. Tome caf na hora do caf, fique com seus filhos na hora determinada para isso e s trabalhe quando chegar a hora.
5- Jogue videogame. Sim, no so s as palavras cruzadas e jogos da memria que treinam a concentrao sustentada (aquela que dura muito tempo).
6- Faa um dirio com o que voc faz o dia inteiro e perceba o que distrai voc. Ao escrever voc se distraiu mais do que quando estava cozinhando? Ta o diagnstico do que treinar.
7- Cuidado com remdios Antidepressivos e remdios para dormir, principalmente, pioram muito a concentrao e a memria.

PARA SABER MAIS
Rapt - Attention and the Focused Life 
Winnifred Gallagher, Penguin Books, 2010
A Arte de Fazer Acontecer
David Allen, Elsevier, 2005


2. CAPA  MINHA VIDA SEM FOCO
Esta reportagem demorou dois anos para ser escrita. E a culpa no  (s) da minha desorganizao. Eu tenho Transtorno de Dficit de Ateno. Aqui voc vai entender como meu crebro funciona.
TEXTO: RODRIGO REZENDE
DESIGN: RICARDO DAVINO
FOTOS: SAMUEL ESTEVES

     Buzina de carro, latido de cachorro, choro de beb, Que horas so?, Rola algo no Facebook?, Que programa de TV  esse?, O que tem para comer?, Por que algum vai ler esta matria mesmo?. Apenas 5 minutos sentado em frente ao computador e tudo isso j passou pela minha cabea. Tudo ao meu redor fala mais alto do que escrever este texto. Fecho a janela, checo o relgio, surfo na net, desligo a tv, como chocolate. S ento consigo voltar para explicar o que voc ganha ao continuar lendo esta matria: uma viso sobre como funciona uma mente inquieta. Nas prximas pginas, voc vai enxergar o mundo pelos meus olhos. Bem-vindo ao crebro TDAH.
     A redao da SUPER no  exatamente o lugar mais tranquilo para manter a ateno. Pilhas de livros nas mesas, revistas importadas nas paredes, gente falando ao telefone. Enquanto rabisco caoticamente num bloquinho, o diretor de redao me explica uma pauta: Quero que voc escreva sobre TDAH. Mas em primeira pessoa. Sua experincia pode ser interessante para o leitor. Topo fazer a matria imediatamente. Marcamos o prazo de um ms para entregar o texto que voc l agora. Prazo real de entrega: dois anos.
     Se voc tem TDAH, no  difcil se identificar com a histria acima. Ela expe um dos traos mais caractersticos do Transtorno de Dficit de Ateno e Hiperatividade: dificuldade em gerenciar o tempo. O paciente TDAH tambm se reconhece facilmente na brincadeira de Douglas Adams, autor do Guia do Mochuleiro das Galxias: Amo prazos de entrega. Adoro o som que fazem quando passam voando pela minha janela. Quem sofre de TDAH tende a ser tachado de avoado ou incapaz. Mas julgamentos como esses no explicam as nuances da mente TDAH. Eu mesmo, por exemplo, perco as contas de quantas vezes chego atrasado a compromissos e esqueo datas de aniversrio. Ao mesmo tempo, tenho a estranha capacidade de ler textos que me interessam por horas a fio nos ambientes mais caticos possveis.
      bem provvel que voc conhea mais pessoas com esse perfil. Estima-se que um em cada 20 adultos apresente sintomas suficientes para ser diagnosticado com TDAH. Um estudo afirma que o impacto da doena na produtividade dos EUA  de US$77 bilhes de prejuzo por ano. Uma cifra que ultrapassa a da depresso (US$43 bilhes) e a do abuso de drogas (58). Por isso, entender o TDAH  uma tarefa cada vez mais importante. E  isso que eu fiz, procurando algum que conhece o assunto bem de dentro. Mais exatamente, de dentro de seu prprio crebro.
     Uma pilha de exames com crebros coloridos.  o que mais chama ateno na mesa da psiquiatra e autora de livros Ana Beatriz Barbosa. Mas no consigo tirar os olhos de um outro objeto: um bloco de anotaes. Dentro dele, vejo a prova fsica do que j sabia antes: no sou o nico com problemas de ateno na sala. Os rabiscos caticos s podem ter vindo de um lugar: outro crebro TDAH.
     Enquanto enche de riscos o seu bloquinho, Ana Beatriz explica o que h de errado em nossas cabeas: O defeito est numa parte do crebro chamada lobo frontal, que fica prxima  testa. O lobo frontal  uma espcie de gerente executivo do crebro. A funo dele  coletar informaes e enviar ordens em forma de impulsos eltricos para as outras partes do rgo. Mas, como todo bom gerente, exige um pagamento adequado para trabalhar. No caso, o pagamento  em dopamina, uma substncia que regula a interao entre neurnios. Sem ela, os neurnios do lobo frontal no conseguem conversar direito. Quando isso acontece, o crebro comea a funcionar como uma empresa sem CEO: ganha o setor que grita mais alto. Com medo da falncia, a empresa cerebral ainda pode tentar criar uma espcie de caixa dois de dopamina. A comea uma busca desesperada por tudo que promove a produo do neurotransmissor: acar, sexo, nicotina, jogo, lcool, drogas ilegais. No   toa que 17 a 45% dos adultos com TDAH apresentam problemas com lcool, e que o risco de se viciar em drogas  o dobro para quem tem essa doena. Mas como diagnosticar algum assim? Primeiro,  preciso sorte, diz a psiquiatra. Pessoas com TDAH muitas vezes no tm ideia de que sofrem de uma doena. Sorte foi exatamente o que levou Ana Beatriz a ser diagnosticada. Atrasada para um curso na Universidade Berkeley (EUA)  Comeava s 8h. Cheguei 9h15. , foi obrigada a assistir  nica palestra disponvel no horrio. O palestrante era Russell Barkley, um dos pioneiros no estudo do TDAH. Ao ouvir os sintomas da doena, Ana Beatriz no teve dvidas: Sou eu!. Logo que a palestra acabou, foi atrs de Barkley e pediu para fazer um teste psicolgico. Ele voltou com o resultado positivo. Assim que comeou a se tratar para TDAH, Ana Beatriz, que cursou ao mesmo tempo Medicina, Fsica e Odontologia, conseguiu pisar no freio da mente e seguir uma estrada s: especializou-se em TDAH e hoje  autora de best-sellers sobre o tema.

HOMO DESATENTUS
Savana africana, 30 mil a.C. Em um pequeno grupo de Homo sapiens, algum se esfora para entender a conversa. No  tarefa fcil. Folhas balanando ao vento, pilhas de ossos ao lado, trilhas de animais no cho. Tudo capta seu olhar. Mas o TDAH pode ter sido uma vantagem para nossos ancestrais. Na luta pela sobrevivncia entre caadores-coletores, levava vantagem quem possua uma misteriosa habilidade presente no crebro TDAH: o hiperfoco. Hiperfoco  uma capacidade de superconcentrao caracterstica de muitas mentes desatentas. Voc j deve ter topado com gente assim: o menino que no para quieto, mas joga 10 horas de videogame, ou a pessoa que no vai  aula, mas passa a tarde tocando violo. Seriam todos descendentes diretos do caador distrado, mas supereficaz. Para ele, um animal na savana  como um videogame ou um violo: algo que monopoliza o crebro. Essa capacidade de ver uma presa e apagar o resto do mundo conferiu vantagens evolutivas. E, em tese, possibilitou que os genes do caador TDAH chegassem at ns. Estima-se que 80% dos casos de TDAH tm origens genticas, diz o psiquiatra da New York University Lenard Adler.
     Mas voltemos a 2012. Faz 4 horas que escrevo sem parar. No batuco na mesa, como de costume. Nenhuma janela aberta no navegador. Quem me conhece pode achar que estou possudo. E estou: por uma plula. O mecanismo exato de funcionamento dos medicamentos para TDAH  desconhecido. Mas os efeitos mentais so bem familiares. Em alguns minutos, o crebro, que funcionava como um rdio fora de estao, entra em sintonia. E o impossvel se torna possvel: executar uma s tarefa por vez.
     Ritalin, Aderlil, Concerta, Venvanse. So algumas das drogas mais eficazes da indstria farmacutica na guerra contra os problemas de ateno. Mas ainda no d para afirmar que existem armas de preciso no mercado.  possvel, por exemplo, ingerir um medicamento com um alvo em mente e acertar outro: engolir uma plula com a inteno de escrever um texto e terminar arrumando a gaveta de meias. Muito menos existe uma espcie de bomba atmica contra o TDAH: um medicamento que funcione com 100% dos pacientes. Para tratar o TDAH, ainda  necessrio algum que entenda de estratgia de guerra: um psiquiatra capaz de testar os medicamentos mais adequados a cada caso.
     Mas agora a pergunta que realmente interessa: como saber se voc tem TDAH? Se voc chegou sem interrupes at aqui, a resposta mais provvel  no. (Mas pode ser que sim. E voc est em hiperfoco agora). A verdade  que s um profissional vai saber responder. Mas, se a resposta for sim, no se desespere. Afinal, um simples TDAH no impediu voc de ler este texto at o final, no  mesmo? E nem me impedir de escrever muitos outros. 
PARASABER MAIS
Mentes Inquietas
Ana Beatriz Barbosa, Fontanar, 2009.


3. COMPORTAMENTO  CONTANDO A VIDA ADOIDADO
Por 14 dias, eu contei tudo na minha vida: horas de sono, peso dos alimentos e nmero de bebidas. (Spoiler: durmo pouco, como mal e bebo muito.) Acompanhe essa viagem.

TEXTO: LUIZ ROMERO
DESIGN: JORGE OLIVEIRA
FOTO: TOMAS ARTHUZZI

     A sua vida  feita de nmeros. Quantos minutos voc passa se olhando no espelho, quanto tempo perde esperando o sinal abrir e quantas palavras vai encontrar at o final desta matria. E acredite, depois de contadas e interpretadas, essas e outras informaes podem te ajudar a viver melhor. Essa  a crena dos praticantes do selftracking. Sim, armados com cronmetro, papel e caneta, eles registram cada acontecimento do dia, do momento que acordam at a hora que vo dormir. E as informaes tiradas dessas observaes regem muitas das decises que eles tomam durante a vida.
     A prtica no  nova. Lembra a lista de 13 virtudes de Benjamin Franklin  de Ordem: faa com que cada coisa tenha seu lugar at Limpeza: no tolere sujeira no corpo, nas roupas ou na habitao  que ele cumpriu e registrou dos 20 anos ao fim da vida. Tambm remete s vtimas de diabetes, que controlam com preciso as taxas de acar no sangue. Mesmo com 3 sculos de distncia, a ideia de Franklin, dos diabticos e dos adeptos do selftracking  a mesma: a exatido da cincia, quando direcionada ao dia a dia, pode melhorar hbitos.
     Testei essa ideia por duas semanas. E descobri que a diferena entre Franklin e eu (alm de fundar os Estados Unidos e descobrir a eletricidade)  o fato de que ele no tinha um iPhone e quase duas dezenas de aplicativos para ajud-lo nas medies. Muitos dos grficos desta e das prximas pginas so resultados de nmeros registrados no celular (no vou mentir: alguns em guardanapo, outros na memria). Tempos, distncias e quantidades, de grandezas nfimas a alturas impressionantes, foram anotados em poucos segundos e, rapidamente, guardados no bolso.
     As lojas de aplicativos esto cheias ferramentas de que ajudam nas medies. O Timenote, por exemplo, o mais til de todos, que armazena as atividades do dia de forma simples e precisa. Nele, a evoluo to buscada pelos self-trackers  destaque, pois ajuda a determinar metas. Funciona assim: quero passar mais horas dormindo. Insiro o objetivo e, com relatrios dirios e mensais, feitos com barras coloridas, comparo a distncia entre a realidade e o alvo.
     Outro, mais simples,  o Daytum, criado pelo americano Nicholas Felton, que usou parte da prpria atividade como medidor para desenvolver a ferramenta. Felton  um dos grandes divulgadores do self-tracking, com relatrios anuais que detalham a frequncia de viagens, a variao de humor, tpicos de conversas e o tempo que passa com amigos e familiares. Ele criou o Daytum para medir essas e outras atividades banais, como o nmero de latas de refrigerante consumidas por ms. Depois de anotado, esse dado pode ser colocado na categoria Bebidas, por exemplo, e comparado com outros goles, de gua ou de cerveja, em grficos gerados pelo aplicativo.
     Esses so apenas dois exemplos de centenas de opes disponveis. E essa oferta, segundo Ernesto Ramirez, do grupo de self-trackers Quantified Self,  uma das grandes responsveis pela popularizao da prtica. Para Ramirez, so ferramentas como o Timenote e o Daytum (alm do Tallywag, do TrackMe, do Repeatables e do SparkPeople), resultado de uma evoluo tecnolgica natural (que comeou com a pena de Franklin), que esto tirando o aspecto tedioso do self-tracking e transformando a atividade em algo fcil e, principalmente, com resultados palpveis.
     Passei 14 dias medindo meus hbitos e, mesmo nesse curto perodo, aprendi alguma coisa. Percebi que como mal, muito mais carne do que verdura, e bebo muito, um pouco mais de cerveja do que gua. Que durmo pouco durante a semana e que no aproveito meu tempo de trabalho como deveria. E o melhor (ou o pior): essas constataes no so baseadas em intuio, no so vagas. Sei que, no almoo, como 140 gramas de carne (e apenas 20 gramas de salada) e que, por ano, bebo 18 gales de gua e 19 gales de cerveja. Que de segunda a sexta, durmo 1 hora e 10 minutos a menos do que deveria, e que, no ltimo ms, passei 40 minutos dos meus dias fazendo qualquer coisa, menos escrevendo esse texto.
     Ou seja, sei exatamente quanto devo aumentar ou diminuir para melhorar. Com esses nmeros em mente, a meta fica clara na minha cabea.  isso que Ramirez quer dizer quando fala de resultados mais prticos. Ou o que o Timenote esfrega na minha cara quando mostra que no bati minhas metas na segunda semana de medies. O selftracking  real, est crescendo e pode ajudar voc a mudar de vida. Ou, como no meu caso, a perceber que deveria, pelo menos, comear a tentar.

NOITES PERDIDAS
Durmo pouco mais de 7h20 por noite. Mas isso porque o final de semana aumenta essa mdia. Sem ele, contando apenas os dias teis, a soma cai para 6h50 por noite, muito menos do que a recomendao materna, de 8 horas. Essa 1h10 que fica faltando, acumulada durante o ano, soma 12 dias de sono atrasado.
Horas de sono:
6h50 mdia de horas DIAS TEIS
7h20 mdia de horas SEMANA INTEIRA
1h10 mdia de sono atrasado por noite em dias teis. Em 1 anoa este atraso  igual a 280 h ou 12 dias.

MARATONA DA VERGONHA
No trajeto de ida e volta at o trabalho, percorro cerca de 50 km por dia, a distncia mnima de uma ultramaratona (um tipo de corrida que extrapola a distncia da maratona, que tem 42 km). Um maratonista demoraria 3 horas nesse percurso. Infinitamente mais lento, no meu ritmo eu levaria 8 horas. Claro que em teoria  pra valer, eu provavelmente morreria na caminhada.

PASSEIO SUBTERRNEO
Diariamente, viajo por 30 km de trilhos de metr, considerando a ida e a volta para casa. A distncia  to grande que equivale ao tamanho de toda a malha ferroviria de Belo Horizonte.

JORNALISMO DE VAGO
Em 5 anos, gastei dentro de nibus, trens e metrs o mesmo tempo que levei para me formar em jornalismo.
Tempo em transporte: 2720 h
Carga horria da faculdade: 2752 h

PGINAS PRODUZIDAS
Nos prximos 12 meses, devo escrever 132 pginas de contedo. Muito, se comparadas com as 6 pginas desta matria, mas pouco se pensar nas 910 pginas das prximas 13 edies da SUPER.

M ALIMENTAO
Deso para almoar e a histria se repete: muita protena, pouca verdura. O ruim  que comer tanta carne vai prejudicar meu rim a longo prazo (ele que processa os 51 kg de carne anuais, equivalentes a 772 bifes) e comer pouca alface (apenas 480 folhas anuais) faz mal ao meu intestino.

NO VERMELHO
Substituo comida por fast-food em, pelo menos, duas refeies da semana. Por ano, o gasto chega a R$ 1440.
Na vida inteira, gastarei R$ 100.800. o preo de 4 carros populares, com hambrguer, batata e refrigerante.

PAPO DE ELEVADOR
Chegando ao trabalho, pego o elevador. Se falasse sobre como esquentou ou esfriou durante todo o tempo que passo dentro de elevadores, durante um ano de subidas e decidas, falaria por 14 horas seguidas.

NOTCIAS NO ELEVADOR
Os elevadores do prdio onde trabalho tm televises que exibem notcias. Durante essas 14h tenho tempo suficiente para ler 2880 notcias.

MARATONA VERTICAL 
Nessa subida at a redao, fico parado, engordando. Se trocasse o cio por escadas (e muito suor), seriam 19.960 degraus por ms, equivalente a subir e descer 6 vezes as escadas do Empire State Building.

TRABALHO DE MENOS
Durmo pouco, mas, aparentemente, trabalho demais. E as aparncias enganam: a mdia de 33 minutos que passo a mais na redao, por dia, resulta das conversas no Gtalk e das olhadas no Facebook (mdia de 40 minutos dirios), e do tempo extra que passo no almoo (mdia de 11 minutos por refeio), e, no, do amor ao jornalismo.

QUE NEM GUA
Saindo da redao (e nos finais de semana),  hora de beber. A constatao assusta, mas tomo mais cerveja do que gua. Por ano, so 19 gales de cevada contra 18 gates de gua.
CAF 9 gales
SUCO 11 gales
GUA 18 gales
CERVEJA 19 gales

TEMPO DE ESPERA
A coisa s piora quando o caf entra na conta: durante a minha vida inteira, tomarei 16.380 litros, equivalente aos tanques de trs carros de bombeiro. Pior do que isso  pensar que, em um ano, perco 11 horas na frente da mquina, esperando a bebida ficar pronta.

BAIXA CULTURA
Acumuladas pela vida inteira, as 41 horas mensais de consumo de cultura viram 3 anos entre livros, filmes e discos. A conta cresce quando considero as revistas. Por ano, so 4800 pginas. Empilhadas, alcanam 1,5 metro ( triste, mas  quase a minha altura).
MS
9 discos
6 filmes
1,5 livro
5 revistas ao ms
400 pginas ms
4800 pginas / ano

ATIVIDADES MNIMAS
No parece, mas pequenas rotinas dirias ocupam um espao enorme da nossa vida. Por exemplo, acumuladas, as atividades de antes de dormir roubam 8 dias do meu ano.
Tomar banho 24 min. por dia  6 dias por ano
Escovar os dentes 8 min. por dia  2 dias por ano.


4. SADE  NASCER  UM PARTO
Nascer  um negcio muito perigoso  pelo menos para ns humanos. Por isso, a hora do parto virou tema de debate: natural ou cesrea? Anestesia ou no? Em casa ou no hospital? E o que raio  um parto humanizado?
TEXTO PATRICIA IKEDA E KARIN HUECK
DESIGN RAFAEL QUICK

     Em uma pequena cidade da Sua, uma mulher entrou em trabalho de parto e ficou  espera do nascimento do beb por vrios dias. Treze parteiras foram chamadas para ajudar a me, sem nenhum sucesso. O marido dela, Jacob Nufer, num ato de desespero, pediu permisso s autoridades locais para fazer um corte no abdmen de sua esposa, pois s assim seria possvel retirar a criana. Ele era castrador de porco e utilizou seus conhecimentos de veterinrio para fazer o parto. O beb nasceu grande e saudvel. A me no s sobreviveu como ainda teve muitos outros filhos ao longo dos anos, todos de parto normal, incluindo gmeos.
     Esse episdio aconteceu por volta de 1500. Acredita-se que seja o primeiro relato confivel sobre uma mulher que sobreviveu a uma cesariana. (No acredite na lenda de que a cesrea vem de Julio Csar, o imperador que teria nascido dessa forma. Apesar de existirem pinturas antigas que retratam o romano saindo da barriga de Aurlia, sua me, o conhecimento mdico da poca ainda era precrio. Se Aurlia realmente tivesse passado por uma cesrea, a morte era certa. E relatos histricos afirmam que ela teria vivido por muito tempo e chegou a ver seu filho conquistando a Glia.) A verdade  que, seja cesrea ou parto normal, a hora do nascimento  um momento delicado para ns humanos. S no Brasil, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Washington, publicada em 2011, 65 em cada 100 mil mulheres morrem por problemas na gestao ou durante o parto. No mundo todo, o nmero de mortes no parto chega a 529 mil por ano. Por isso, h sculos a cincia vem tentando facilitar o parto para que ele seja o mais seguro possvel  mas ainda no chegou l.

, CABEO
     A culpa para tanto perigo na hora do nascimento est equilibrada em cima do seu pescoo. Temos cabeas  e principalmente crebros  grandes demais para o nosso corpo. Nossa massa enceflica pesa 2,5% do nosso peso total. Comparado com gatos (1%), cachorros (0,8% do peso) ou at mesmo elefantes (0,1%),  um valor de respeito. E um problema, fisicamente, para passar pelo canal vaginal. Junte nosso crnio avantajado ao fato de que andamos eretos, e a situao s se complica. Como caminhamos sobre duas pernas, nossos quadris tiveram de se adaptar para carregar a coluna vertebral e ainda encaixar as pernas e ficaram estreitos, se comparados com a cabea. Outros mamferos tm quadris muito mais bem preparados para dar  luz do que ns. Para resolver esse impasse, a natureza criou uma soluo um tanto pragmtica: fez todas as crianas humanas nascerem prematuras.
     Sim, mesmo depois de 9 meses de gestao, nascemos antes do tempo.  por isso que um beb humano  to dependente quando vem ao mundo e precisa de tanto cuidado. Um macaco, por exemplo, consegue subir nas costas de sua me logo depois do parto. O homem, para fazer o mesmo, teria de nascer com o crnio de uma criana de um ano de idade  um tamanho que no passaria pelo quadril da me. Isso explica o fato de o crnio dos outros primatas duplicar ao longo da vida, e o nosso crescer 4 vezes. Para piorar, nossos rebentos no param de crescer. Se nossos ancestrais tinham de ralar para comer frutinhos e alguma protena de vez em quando, hoje em dia, uma grvida pode comer um Big Mac com batata frita todos os dias, se quiser. O resultado so bebs cada vez maiores. Um estudo australiano revelou que recm-nascidos de 1993 a 2002 aumentaram o peso em 12% ao longo do perodo. Outra pesquisa na Irlanda tambm mostrou que eles engordaram em mdia meio quilo de 1950 a 2000. Ou seja, d-lhe cabeo de beb para passar por quadrilzinho de mulher.
      exatamente por causa dessa incompatibilidade fsica que inventamos a cesrea. H alguns casos em que o nascimento simplesmente no seria possvel por meio do parto natural. Entre 1950 e 2008, o nmero de mortes maternas no mundo ficou 3 vezes menor, e o de recm-nascidos, 5 vezes. Isso se deve a avanos da medicina de uma forma geral  inclusive s cesreas. Na verdade, ela  a soluo indicada para dezenas de complicaes, como hemorragias no final da gestao, doenas hipertensivas, se a cabea do beb no passar pela bacia da me ou se o feto estiver na posio transversal ou com o cordo umbilical enrolado no pescoo. A Organizao Mundial da Sade recomenda que at 15% dos partos sejam feitos de forma cirrgica  justamente para essas complicaes. Mas a taxa por aqui anda muito superior a isso. Cinquenta e trs por cento dos bebs no Brasil nascem por cesrea.  um exagero.
     O problema de um ndice to alto est nos riscos. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul analisou os casos de morte materna ocorridos durante 20 anos no Hospital de Clnicas de Porto Alegre e concluiu: o risco de morte  quase 11 vezes maior em mulheres submetidas  cesrea quando comparado s que tiveram parto normal. Infeces e acidentes anestsicos foram as principais causas. Outro problema so os nascimentos antes da hora. A Organizao Mundial da Sade calcula que mais de um milho de recm-nascidos morram todos os anos por serem tirados da barriga da me antes da 37 semana (o tempo ideal so 40 semanas de gestao  mas at 42 ainda  considerado normal). Se o tempo da gravidez no  respeitado, o beb pode nascer mais leve e o risco de desenvolver problemas respiratrios  4 vezes maior. A cesrea  um recurso eficaz para diminuir a mortalidade, quando h uma adequao mdica para isso. Quando  indicada por razes no-mdicas ou duvidosas, ela aumenta o risco da mulher e do beb de adoecer e morrer, explicam a mdica Simone Diniz e a educadora perinatal Ana Cristina Duarte.
     As razes no-mdicas para a cesrea incluem uma prtica bem conhecida nos consultrios: marcar a data do nascimento em vez de esperar o parto natural. Isso pode ser conveniente para a me, que consegue programar a licena do trabalho, por exemplo, mas  prtico principalmente para o mdico. Com o horrio agendado, ele sabe que no ser surpreendido por partos de emergncia de madrugada ou ainda pior: durante as horas de consulta paga. No modelo de sade brasileiro, agendar uma cesrea acabou se tornando mais conveniente pela questo do tempo explica Daphne Rattner, mdica epidemiologista, professora da UNB. Ou seja, a escolha pela cesrea est sendo feita por motivos que no levam em considerao a sade da me ou do beb  sem que isso muitas vezes fique claro. Mas h outros fatores responsveis pelo aumento na procura por cesreas. Historicamente, os partos naturais eram conhecidos por intervenes de rotina desnecessrias, como corte da vagina, imobilizao em uma cama e toques vaginais frequentes. Hoje, muitos desses procedimentos no so realizados, mas o medo do parto persiste. E mais: por serem cada vez mais raros muitos mdicos sentem-se despreparados para fazer o parto vaginal. No   toa que as mes prefiram esse a cesrea, ningum quer fazer um procedimento que pouca gente sabe fazer. E o resultado: uma taxa de cesrea nos hospitais particulares imensa, 89% dos bebs so retirados da me por meio de operaes  quase 6 vezes o ndice indicado.

ESTRESSE PS-TRAUMTICO
     Parir uma criana  um negcio complicado (veja o tanto nas ilustraes desta e das outras pginas). Diversos estudos mostram que cerca de 3% das mulheres desenvolvem estresse ps-traumtico depois de dar  luz. E at 30% das mes apresentam alguns sintomas do distrbio at 6 semanas depois do parto. E mais: na maior parte das culturas, o nascimento de um filho  mais um motivo de apreenso do que de alegria imediata. A antroploga evolucionista Wenda Trevathan concluiu que, na maior parte das sociedades (da Holanda ao Yucatn), a primeira reao ao parto  apreenso. Primeiro, certifica-se que me e filho passam bem. S depois  que se parte para o abrao  e ao amor incondicional ao filho. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Connecticut, os principais motivos para o desenvolvimento de estresse ps-traumtico de parto so a falta de autonomia da me, a sensao de no saber o que esto fazendo com ela, a falta de cuidados mdicos e a separao forada do filho. Em outras palavras, ao tratar a hora do nascimento como um procedimento mdico, como uma endoscopia ou um raio-X, os hospitais podem traumatizar as mes.
     Por causa disso  e por causa do nmero exagerado de cesreas  , desde a dcada de 1980 mes e mdicos tm defendido o parto humanizado. O nome meio esquisito nada mais  do que fazer o nascimento da forma mais natural possvel  privilegiando sempre o parto normal e rechaando intervenes mdicas. Alguns hospitais no Brasil j oferecem salas especiais nas quais as mes podem dar  luz dessa forma, com direito a decorao especial (teto que simula cu estrelado, por exemplo), banheiras, almofadas e bolas de exerccio para deixar a me  vontade. Mas o privilgio  para poucas sortudas. O servio somente  oferecido nas maternidades mais caras do Pas. Mas mesmo as salas de parto humanizado no conseguem garantir que no sejam feitas intervenes mdicas na hora H. Por isso, algumas mes optam pelo parto em casa.
     Esse era o procedimento comum at a metade do sculo 20. Nos EUA, por exemplo, por volta de 1900, a maioria dos partos ocorria longe dos mdicos. Quarenta anos depois, a taxa de nascimento fora dos hospitais caiu para 44%. Em 1969, a proporo desabou para 1% e em 2004 estava em 0,5%. Nos ltimos 4 anos, no entanto, um ligeiro aumento nos partos domiciliares mostra que a ideia anda se espalhando. Na Holanda, 30% dos bebs nascem em casa. O ndice de cesreas tambm  pequeno, cerca de 10%. O pas  apontado como exemplo de um modelo menos medicalizado na assistncia ao parto. No Brasil no h dados, mas partos caseiros estrelados como o de Gisele Bndchen deram aquele empurrozinho  apesar do Conselho Regional de Medicina do Estado de So Paulo no recomendar a prtica.
     A noo de que um mdico e um hospital so imprescindveis, alis, tambm  coisa nossa. Em outros pases, ter os filhos longe do hospital  muito mais comum do que por aqui. Nos EUA, 28% dos bebs vm ao mundo em casas de parto, centros de nascimento onde nem sempre h o acompanhamento de um mdico. Alguns pases da Europa tm at regulamentao prpria para a atuao das parteiras, que conduzem boa parte dos nascimentos por l.
     H algumas questes importantes no parto longe dos hospitais. Para comear, ele s  indicado em gestaes de baixo risco, as que no se encaixam nas indicaes de cesrea, por exemplo. E tem um fator positivo: ele expe a me a riscos menores de infeco e de, complicaes na anestesia (claro: no h anestesia), alm de menos laceraes no perneo (sim,  comum a regio entre a vagina e o nus rasgar durante o parto). Assim, como a maior parte das mortes no hospital acontece por causa de infeces, o parto domiciliar pode at ser mais seguro  se no houver nenhuma complicao. E esse se  muito importante. O maior estudo j feito sobre o assunto  de 2010 e analisou 500 mil nascimentos na Europa e na Amrica do Norte. Ele concluiu que a mortalidade de partos em casa  mais de duas vezes maior do que os feitos nos hospitais. As taxas so baixas: 0,2% e 0,09% respectivamente e, desde ento, o estudo j foi contestado por ter juntado amostras de pesquisas muito diferentes  mas ele no foi descartado.
     Mesmo que a gestao seja de baixo risco, a complicao mais comum num parto domiciliar  durante o trajeto do tero at a vagina  o corpinho do beb no faz a rotao adequada (o termo tcnico disso  falta de rotao de apresentao fetal). Isso  impossvel de prever antes do parto. No hospital, o mdico conta com recursos como o partograma, que ajuda a detectar esse tipo de alterao durante o trabalho de parto. Numa emergncia, pode recorrer a algum procedimento. J em casa, a me vai sofrer um bocado at o beb sair. A sequela mais comum para ela  a lacerao da vagina  o risco  de 70%. E para o beb pode ser ainda mais grave: faltar oxignio no crebro. No geral, esse tipo de parto  mais recomendado a mes que j passaram pela experincia. Uma pesquisa da Universidade de Oxford que analisou 65,5 mil partos de gestaes de baixo risco na Inglaterra concluiu que 50% das mes de primeira viagem que optaram por ter o beb em casa foram transferidas para o hospital no meio do trabalho de parto. Quando era o segundo ou terceiro filho, o risco de ter o beb em casa com uma parteira era o mesmo em um hospital com um obstetra. E eis a o paradoxo. Nascimentos no hospital tm mais complicaes por causa das intervenes mdicas, que so mais comuns  j os partos em casa so mais seguros; mas quando algo d errado, os problemas costumam ser mais srios. Cabe  me e ao mdico escolherem os riscos. E, como estamos falando de mes, mdicos e o bem-estar de pequeninos e rechonchudos bebs recm-nascidos, d para entender por que no existe um consenso.

CESREA
 O risco de morte  maior para quem faz cesrea: quase 11 vezes maior do que comparado ao parto normal.
 As cesreas so mais comuns na rede particular (89% dos nascimentos) do que na pblica. Quem decide isso so os mdicos.
 A cirurgia  rpida e indolor, mas a recuperao  mais demorada. A me costuma ficar 3 dias no hospital depois do nascimento.

COMO O MDICO FAZ:  Se tudo der certo, a operao dura 1h30. A anestesia  aplicada na regio lombar, entre uma vrtebra e outra: a me logo comea a sentir as pernas esquentado, formigando e, por fim, adormecendo. Os pelos pubianos so cortados para diminuir a chance de infeco e, a partir de agora, a mulher vai urinar por uma sonda. Com um bisturi, o obstetra faz uma inciso de 12 centmetros que atravessa 7 camadas de tecido. A bolsa de gua  perfurada e, finalmente, retira-se o beb de dentro do tero. O cordo umbilical  cortado. Em seguida, o obstetra retira manualmente a placenta e faz uma limpeza na cavidade uterina. Um medicamento  colocado junto com o soro para que tero se contraia e pare o sangramento uterino, evitando a anemia. Depois, uma por uma, as 8 camadas so costuradas e o corte  fechado com curativo ou cola especial

PARTO HUMANIZADO
 O beb pode nascer a qualquer hora, no h data marcada para nascer, mas o tempo de gestao mdio  de 37 a 42.
 Na verso humanizada, a me  ativa: pode caminhar durante o trabalho de parto, decidir em que posio vai dar  luz e quem fica por perto.
 Mesmo se for dentro do hospital, as salas humanizadas simulam ambientes caseiros: cu de estrelas, camas, e banheiras podem estar L.
COMO O CORPO FAZ: Mes de primeira viagem tm partos mais demorados, em mdia 12 a 16 horas. A ocitocina, hormnio liberado pela hipfise e que ajuda na sensao de afeto entre me e filho, d a ordem para as contraes, que rompem a bolsa dgua. O colo do tero se dilata at 10 centmetros (esse processo que pode ser demorado) e, num reflexo, a me faz fora para ajudar a sada do beb. Dentro dela, o feto faz um trajeto em J: passa pelo canal de parto, depois pela bacia e chega ao perneo, que  a abertura da vagina. Durante o processo, seu trax  comprimido e massageado, o que ajuda a expelir os fluidos de dentro dos pulmes e diminui os riscos de asfixia. Minutos depois sai a placenta.  muito comum a musculatura que controla o parto sofrer um estiramento. Por isso, casos de incontinncia urinria e fecal na terceira idade so diretamente relacionados ao parto natural.

PARTO EM CASA
 Em casa, no h como anestesiar a me.  Para aliviar a dor, pode-se recorrer a massagens e banhos de banheira ou chuveiro.
 Apenas partos de baixo risco podem nascer em casa.  Mas, se algo der errado, a nica alternativa  correr para o hospital.
 Nem sempre a presena de um mdico  exigida pela me.   comum os partos domiciliares serem feitos por parteiras e doulas.

PARA SABER MAIS
Birth
Tina Cassidy, Grove Press, 2006
Parto normal ou cesrea
Simone Grilo Diniz e Ana Cristina Duarte, Editora Unesp, 2004


5. SADE  MACONHA SINTTICA  E A ERA DAS DROGAS DE LABORATRIO
Um grupo de qumicos teve uma ideia ousada: usar a tecnologia para desenvolver verses artificiais, mais fortes e mais baratas, das drogas mais usadas no mundo: maconha, cocana e herona. Veja no que deu.
TEXTO VANESSA VIEIRA E BRUNO GARATTONI
DESIGN AMANDA MUSSI
ILUSTRAO ANDR BERGAMIN

     Cocana  feita com folhas de coca. A herona, com uma flor chamada papoula. A maconha  uma planta. As drogas tradicionais tm uma caracterstica em comum: todas so naturais, ou seja, se baseiam em vegetais  que o homem cultiva e depois refina em processos relativamente simples. Mas e se fosse possvel usar tecnologias modernas para reinventar essas drogas? Criar verses artificiais da cocana, da herona e da maconha, feitas com ingredientes sintticos, que reproduzam perfeitamente os efeitos delas  mas que tragam vrias vantagens, como ser muito mais potentes e baratas e, em alguns casos, possam at ser vendidas legalmente? Isso seria timo para os produtores e vendedores. E, quem sabe, o incio de uma nova era de polmica, violncia e problemas para a sociedade: a era das drogas sintticas. E ela j comeou.
     Em novembro de 2011, a polcia dos EUA invadiu uma casa, em Las Vegas, onde havia um superlaboratrio de US$30 milhes produzindo verses sintticas de drogas como maconha e cocana. Logo depois, os agentes encontraram uma operao ainda maior, no Estado de Utah. Enquanto isso, uma rede de dezenas de empresas continuava comercializando  legalmente  os produtos pela internet. Mas onde surgiram as drogas sintticas? Quem as inventou? Como so feitas? Que cara tm? Quais so os riscos? E por que a venda  permitida?
     As drogas sintticas se revelaram ao mundo de um jeito estranho: na forma de incenso e sais de banho. Em 2011, mais de 6 mil pessoas sofreram algum tipo de intoxicao, nos Estados Unidos, relacionada a sais de banho: daqueles que se colocam na banheira para fazer espuma. Um nmero bizarro, 20 vezes maior que o do ano anterior. O incenso tambm virou uma questo de sade pblica, com quase 7 mil casos de envenenamento  em 2009, haviam sido apenas 14.
     Como explicar essa onda? Ser que os sais de banho e o incenso haviam sofrido algum tipo de contaminao? A polcia decidiu analisar os produtos, e descobriu que no. Na verdade, no eram sais de banho nem incenso. Suas embalagens diziam isso. Mas dentro delas havia uma nova classe de substncia: drogas sintticas, que haviam sido criadas em laboratrio para reproduzir os efeitos entorpecentes de drogas como maconha, cocana e herona. S que os fabricantes usavam produtos qumicos permitidos, ou seja, tecnicamente seus produtos estavam sendo fabricados dentro da lei. Geralmente, os produtores so pequenas empresas que funcionam em garagens, pores ou casas na zona rural. Nos EUA so cada vez mais comuns as histrias de laboratrios caseiros, diz Rafael Lanaro, do Centro de Intoxicaes da Unicamp.
     A principal empresa do setor se chama Pandora Potpourri e fica num galpo da cidade de Columbia, no Estado do Missouri. Ela produz um incenso, o Bombay Breeze (brisa de Bombaim, em ingls), que  vendido em pacotinhos de 3 gramas (US$13). Seu criador  o empreendedor Wesley Upchurch, de 24 anos, que diz vender 40 mil pacotinhos do produto por ms, por uma rede de 5 distribuidores e 50 lojas, com faturamento de US$ 2,5 milhes por ano. Ele jura que seu produto  apenas um incenso. Ns no queremos que as pessoas o fumem, declarou  revista americana BusinessWeek.
     O suposto incenso lembra um pouco a maconha tradicional, tanto na textura quanto na cor  so fragmentos esverdeados de planta. A planta, no caso,  capim modo, e no d nenhum barato. O efeito do produto est em pequenos cristais sintticos, que so difceis de ver a olho nu e vm misturados com o capim. So eles que, quando fumados pelo usurio, liberam a substncia ativa da droga. Seu nome  CP 47497. Trata-se de um canabinide sinttico, ou seja, uma droga artificial que imita os efeitos da cannabis (maconha). A substncia foi desenvolvida nos anos 1980 pelo laboratrio Pfizer  suas iniciais homenageiam o fundador do laboratrio, Charles Pfizer  e se destina a pesquisas cientficas. A sacada dos fabricantes de maconha sinttica foi pegar essa substncia, cuja produo e comercializao no  ilegal, e vender como droga. Ou melhor, no era: as autoridades esto percebendo a jogada, e a CP 47497 foi proibida nos EUA  mas ela ainda pode ser obtida, pela internet, de fornecedores chineses.
     Para ficar um passo  frente, as empresas da maconha artificial migraram para outra substncia: a famlia de compostos JWH (018, 073 e 200, entre outros). So canabinides sintticos criados nos anos 1990 pelo qumico americano John W. Huffmann, que buscava remdios para aliviar o sofrimento de pacientes de aids e cncer. Acabaram transformados em droga. Huffmann, hoje com 80 anos, est aposentado e no gosta de falar sobre o assunto. Mas, no ano passado, quando a maconha sinttica comeou a ganhar fora, deu a seguinte declarao a uma rdio da cidade onde vive, na Carolina do Norte: Voc no pode ser responsabilizado pelo que idiotas [os usurios] fazem.
     As pessoas acham que, se voc pode adquirir essas drogas legalmente, devem ser seguras. Mas elas podem ser muito mais nocivas do que as tradicionais, diz Anthony Wong, diretor do Centro de Assistncia Toxicolgica (Ceatox) do Hospital das Clnicas da Universidade de So Paulo. Para se ter uma ideia, numa anlise feita pela polcia cientfica do Estado americano de Kansas com 100 pacotes de maconha sinttica de diferentes fabricantes, concluiu-se que, em alguns casos, os canabinides sintticos usados eram at 500 vezes mais potentes do que o THC, princpio ativo da maconha.
     Ou seja: eles realmente deixam o usurio doido. Em alguns casos, at demais. Se uma das substncias presentes na droga tem o poder de diminuir as inibies e sua presena  concentrada, um dos efeitos disso  que a pessoa fique mais violenta, explica Wong. Pessoas sob o efeito dessas substncias tendem  agressividade,  depresso grave e comportamentos suicidas. Foi o caso do americano Robert Butler Jr, de 17 anos, que disparou contra o diretor e a vice-diretora de sua escola e depois se matou. Exames toxicolgicos comprovaram que ele estava sob o efeito de maconha sinttica.

O CANIBAL DE MIAMI
     A cocana sinttica apresenta o mesmo dilema;  to forte que pode acabar fazendo a pessoa se descontrolar. Ela  produzida sob vrias marcas comerciais. O produto  vendido pela internet, em um pacotinho com 0,2 gramas de p branco que custa US$ 25. O fabricante insiste: trata-se apenas de um sal de banho concentrado, que deve ser jogado na banheira e no  adequado para consumo humano. Na verdade,  uma mistura de MDPV (metilenodioxipirovalerona) e mefedrona, duas substncias que produzem efeitos similares aos da cocana: estimulao do sistema nervoso central e euforia. S que muito mais intensa. Num caso bastante impressionante, que aconteceu em maio deste ano, o americano Rudy Eugene, 31, ficou conhecido como o canibal de Miami. Aparentemente em transe, ele atacou um mendigo  cujo rosto desfigurou a mordidas. Segundo as autoridades, Rudy estava sob efeito de mefedrona. Ele acabou sendo morto pelos policiais.
     A proliferao das novas drogas sintticas  favorecida por uma srie de circunstncias. Enquanto a fabricao dos entorpecentes tradicionais depende de plantas cultivadas em pases como Bolvia, Colmbia e Afeganisto e seu comrcio exige uma grande rede de logstica e transporte at os mercados consumidores, os ingredientes das drogas sintticas podem ser obtidos pela internet  onde  possvel encontrar quase 4 mil laboratrios chineses oferecendo o JWH, por exemplo.
     Alm disso, as drogas sintticas tm alto rendimento. Para fazer 800 gramas de p de cocana, so necessrios 190 quilos de folhas. Com as drogas sintticas, voc combina substncias qumicas puras e o aproveitamento  de quase 100%, compara Rafael Lanaro, do Centro de Intoxicaes da Unicamp. Ou seja: as quantidades de matria-prima necessrias para fazer o produto so muito menores, o que torna mais fcil sua importao e manuseio (ou contrabando, nos pases onde as substncias j so proibidas). Para o fabricante, o negcio fica bem mais tranquilo. E lucrativo tambm.

KROKODILAGEM
     A Rssia tem um problema srio com herona. Todos os anos, acredita-se que 30 mil pessoas morram de complicaes ligadas ao uso dessa droga  uma das mais viciantes, cruis e caras que existem. Sim, caras. Mas algum russo empreendedor teve a ideia de criar uma herona sinttica, que custa apenas um tero do preo: o krokodil. Seu princpio ativo  a codena, um analgsico opiceo (anlogo  herona) que  vendido legalmente   receitado para dores fortes nas costas, por exemplo. Os russos tiveram a ideia de cozinhar a codena com outros ingredientes, como thinner, cido clordrico, iodo, gasolina e fsforo. Isso se transforma numa gosma, um lquido que o usurio coloca numa seringa. E injeta.
     Como se fosse herona. Mas com um problema a mais: a substncia causa a necrose (morte) de tecidos nas regies onde  injetada. Depois de algumas aplicaes, os usurios ficam com a pele grossa, morta e esverdeada. Da a origem do nome: krokodil vem de crocodilo. Se a pessoa continuar usando a droga, o quadro costuma evoluir para a amputao de mos, braos e pernas. Em geral, os consumidores do krokodil (que se situam principalmente na faixa dos 14 aos 21 anos de idade) no sobrevivem a mais de 3 anos de uso.
     O combate s novas drogas sintticas enfrenta vrias dificuldades. A principal delas  o fato de muitas dessas substncias serem produzidas a partir de componentes qumicos legais, presentes, por exemplo, na frmula de alguns remdios. Mesmo assim, alguns Estados americanos e pases j identificaram e baniram substncias recorrentes nas novas drogas, como a mefedrona, o JWH ou o CP-47497. Mas quando a polcia cientfica e pesquisadores conseguem apontar os perigos e o potencial toxicolgico de um desses compostos e encaminham s autoridades um pedido para que seu uso seja controlado ou proibido, os produtores criam variaes sutis do composto original, com efeitos semelhantes, ganhando tempo at que a nova substncia seja detectada e criminalizada.
     Nesse jogo de gato e rato entre autoridades e traficantes, em que a legislao pode apenas reagir  medida que as novas drogas vo surgindo, multiplicam-se na internet os sites que comercializam os legal highs, os baratos legalizados.
     No Brasil, os relatos relacionados s novas drogas sintticas ainda so limitados, mas, para os especialistas, isso se deve mais  dificuldade das autoridades de identificar e controlar a entrada delas no pas do que a uma ausncia das mesmas.
     Em agosto do ano passado, a Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria proibiu a comercializao da mefedrona e de outras duas substncias similares. At ento, mesmo que uma pessoa fosse flagrada transportando essas substncias, no podia ser detida pela polcia. Foi quase por acaso que a presena dessas novas drogas sintticas foi detectada no Pas. A anlise do produto s aconteceu porque agentes apreenderam o material pensando que se tratasse de ecstasy. Entretanto, ao analisar a frmula qumica da substncia, a Polcia Federal constatou que se tratava de mefedrona. Mas, apesar da proibio,  possvel que esses compostos ainda estejam entrando no pas e circulando livremente, j que grande parte dos equipamentos para teste de drogas ainda  calibrada para detectar apenas as drogas ilcitas tradicionais.
     Mesmo nos pases onde o combate s drogas sintticas j est mais avanado, h dificuldades tcnicas e legais para combater sua disseminao. Alm do alto custo e da complexidade dos testes para detectar essas drogas,  difcil proibir em bloco as substncias presentes nas drogas sintticas, j que elas tambm esto presentes na composio de medicamentos e outros produtos qumicos legais. Quando os cientistas chegam a detectar e sugerir s autoridades a proibio de algum composto, os traficantes vo pesquisar as bulas dos remdios em busca de novas substncias e criam combinaes diferentes. Eles esto sempre vrios passos  nossa frente, admite Anthony Wong, do Hospital das Clnicas. Segundo o coordenador geral de Represso a Drogas da Polcia Federal, Czar Luiz Busto, o Brasil j tem investido no combate s drogas sintticas. Policiais esto sendo treinados para investigar essas drogas, e temos trocado informaes com outros pases. Novos equipamentos tambm tm sido adquiridos para reforar a vigilncia, diz ele. A polcia precisa mesmo se mexer. Porque segundo o relatrio World Drug Report, da ONU, a tendncia  que, com o aumento das restries s drogas sintticas nos pases desenvolvidos, a produo e o consumo acabem migrando para a Amrica Latina.
     Acontea o que acontecer, uma coisa  certa: a humanidade sempre consumiu, e ir continuar a consumir, algum tipo de droga. Com todos os riscos que isso acarreta  e com todos os avanos que a tecnologia puder trazer.

CLSSICO MODERNO
Walter White  um qumico brilhante. Mas ganha pouco como professor, e descobre que est com cncer. Para ganhar dinheiro rpido e deixar uma herana para a famlia, comea a produzir uma droga ilegal: a metanfetamina (crystal meth). Esse  o enredo da srie americana Breaking Bad, que j ganhou 6 prmios Emmy e muitos fs no Brasil (onde  exibida pelo canal pago AXN). A srie gerou curiosidade sobre a crystal meth, pouco conhecida por aqui. Na verdade, trata-se de uma droga muito antiga, sintetizada em 1919 por um cientista japons  e usada pelos pilotos americanos na Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, comeou a ser consumida ilegalmente pela populao civil dos EUA, onde hoje h 1,2 milho de usurios da droga. A metanfetamina  um estimulante, e produz sensao de euforia. Pode ser fumada ou injetada e  considerada extremamente viciante.

PARA SABER MAIS
World Drug Report
ONU, 2011, http://abriol.io/2Dfg 
Synthetic Cannabinoids and Spice
European Monitoring Centre, 2009, http://abr.io/2Dfi


6. AS FOTOS MAIS CARAS DA HISTRIA
Essas trs imagens, juntas, custaram mais de US$10 milhes. Foram vendidas em leilo para gente que compra muito mais do que a beleza de uma obra de arte. Entenda por que elas custaram tanto (e vire a pgina para ver mais registros milionrios).
TEXTO LUIZ ROMERO 
DESIGN AMANDA MUSSI

US$ 4,3 MILHES
RHEIN II, DE ANDREAS GURSKY
Essa fotografia do rio Reno, batida na Alemanha, em 1999,  a mais cara da histria. Como explicar esse preo? A imagem respeita duas exigncias do mercado de arte: tem passagem por galerias (das seis cpias, quatro esto em museus) e  grande. Sim, para os compradores tamanho  documento. E essa  gigante, a maior das seis: tem 1,8 m de altura por 3,6 m de largura.

US$ 3,8 MILHES
SEM TTULO, DE CINDY SHERMAN
Esse retrato, que mostra a prpria Cindy Sherman, foi tirado em 1981 e est no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York. Parte da fama (e do preo) vem da ambiguidade da foto: no sabemos se mostra uma menina ou uma mulher, se ela est triste ou feliz. Alm disso, pendurada, a fotografia impressiona, pois mostra a retratada quase em tamanho natura.

US$ 3,6 MILHES
DEAD TROOPS TALK, DE JEFF WALL
Leiloada em maio, essa fotografia foi produzida em estdio, em 1992, e mostra soldados soviticos ressuscitando depois de uma emboscada. A imagem  rara (uma das trs cpias produzidas pelo fotgrafo), uma caracterstica valorizada por colecionadores. Alm da raridade,  monumental, com 2 m de altura e 4 m de largura.

MUSEU DO MILIONRIO
Conhea outras imagens que superaram a marca do US$ 1 milho

US$ 2,8 MILHES
SEM TTULO (COWBOY), DE RICHARD PRINCE
Tirada em 2001, mostra uma propaganda da marca de cigarros Marlboro. Sim,  a fotografia de uma fotografia. E custou tudo isso? Em parte, o preo  justificado por uma etiqueta com a assinatura do fotgrafo, a numerao da obra (uma de apenas duas cpias) e o ano em que foi produzida. O suficiente para fazer brilhar os olhos dos colecionadores.

US$ 2,1 MILHES
SEM TTULO #92, DE CINDY SHERMAN
Sim, ela de novo. E so vrias repeties entre os mais vendidos. As 20 mais caras da Christies, por exemplo, foram batidas por apenas 8 fotgrafos. Cindy Sherman aparece na lista com 5 obras, como prova de uma reao em cadeia tpica do mercado de arte: um leito bem-sucedido aumenta o preo das outras peas do mesmo artista.

US$ 1,8 MILHO
BLACKSEA, OZULUCE; YELLOW SEA, CHEJU; RED SEA, SAFAGA, DE HIROSHI SUGIMOTO
H trs dcadas, o japons Hiroshi Sugimoto produz imagens como essa: mostram o mar, a linha do horizonte e o cu. No entende como algum pode pagar to caro por registros to simples? Acredite, mesmo com obras de arte, a questo no  a beleza, mas a movimentao do mercado. Se a produo de um artista est valorizada entre curadores, museus e compradores, vai custar, caro.

US$ 1,5 MILHO
SEM TTULO (COWBOY), DE RICHARD PRINCE
De novo, Richard Prince. Dessa vez, ele fatura US$ 1,5 milho com a obra mais barata desta matria. Impressionado com os valores? Saiba que o mercado de fotografias ainda  iniciante. Pense que a pintura mais cara da histria  Os Jogadores de Cartas, de Paul Czanne  custou US$ 250 milhes.

